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Farinha de Bragança vira referência gastronômica

Atualizado: 28 de abr.

Registro de Indicação Geográfica coloca o produto como algo único no mercado e abre

portas ao turismo no Pará

O Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI) concedeu o pedido de registro de Indicação Geográfica (IG) para a farinha de Bragança. Isso faz com que o produto tenha reconhecimento no mercado pela sua procedência e pela tradição regional.

O registro de IG é uma ferramenta para a melhoria da vida dos produtores de farinha da região e para o desenvolvimento socioeconômico da área geográfica, estimulando investimentos na produção e aumentando a participação do produtor na comercialização dos produtos. Além do município de Bragança, a IG reconhece o uso do nome Farinha de Bragança pelos produtores dos municípios paraenses de Tracuateua, Augusto Corrêa, Santa Luzia do Pará e Viseu, que também comercializam o produto.

Álvaro do Espírito Santo, professor da Faculdade de Turismo da Universidade Federal do Pará (UFPA), fundador e primeiro coordenador do Fórum Estadual de Indicações Geográficas e Marcas Coletivas do Estado do Pará, foi um dos pioneiros no processo de registro da farinha. “Esse trabalho começou quando eu estava na Secretaria de Turismo (Setur), em 2012. A Indicação Geográfica era uma das estratégias da Setur para promover o turismo gastronômico no Pará. A gente partiu do pressuposto que se a gente tivesse produtos com dimensão geográfica, nós teríamos mais força para divulgar a gastronomia do Estado. A ideia era trazer pessoas para virem conhecer a culinária paraense”, relatou.

O professor e sua equipe começaram a fazer um trabalho de fortalecimento dos processos de Indicação Geográfica, pesquisando quais produtos tinham potencial de registro no Estado. Porém, eles perceberam que o processo de IG seria muito complexo, pela quantidade de informações exigida pela INPI, de ordens técnica, geográfica, histórica e de organização dos produtores. Não daria para o Setur, um órgão focado em turismo, dar conta de tudo, admitiu.

Foi quando o professor Álvaro sugeriu que fosse construído o Fórum de Indicação Geográfica e Marcas Coletivas do Pará, que aos poucos reuniu instituições parceiras, tendo mais de 30 entidades atualmente. “Passamos a fazer o trabalho de articulação para que todas as instituições que atuavam na área de alimentação

pudessem ajudar no processo da indicação e assim nós conseguimos”, explicou Álvaro.

Hoje, são mais de 20 os produtos paraenses com potencial de IG. As entidades envolvidas no processo do registro foram o Sebrae, o Sindicato dos Trabalhadores Rurais na Agricultura Familiar, a Fetagri, a Coomac, a Coomar, a Coopaviseu, a Coopagro, as prefeituras da região bragantina, a Adepará, a Emater, a Secretaria de Estado de Turismo (Setur), a Embrapa, a Senar, a Sedeme, a Universidade Federal Rural da Amazônia (Ufra), a Universidade Federal do Pará (UFPA), a Universidade Estadual do Pará (Uepa) e a Faepa (Federação da Agricultura do Pará).

Álvaro destaca a importância do Estado dar publicidade a esse novo ciclo: o pós-Indicação Geográfica. “Após sair o registro do INPI, tem todo o trabalho de manutenção da qualidade do produto dentro dos padrões que foram aprovados. É preciso que tenha também um trabalho muito grande de marketing para difundir essa marca, uma obrigação tanto do poder público quanto das empresas”, afirmou.

Ana Paula Rebelo, diretora da Secretaria de Turismo de Bragança, destacou que a indicação é compartilhada com toda a comunidade produtora. “Foi um processo demorado, de muitas reuniões, discussões, dificuldades, mas finalmente saiu e isso é uma grande vitória, porque a farinha é um símbolo cultural para nós, paraenses. A qualidade e o reconhecimento já existiam aqui na nossa região e a IG da farinha vem só validar ainda mais e ajudar os produtores a venderem a verdadeira farinha de Bragança”, comemorou. Para Ana Paula Rebelo, ir à região bragantina e não provar a farinha é ter uma experiência incompleta.

O reconhecimento do produto vai proporcionar também que o turismo se volte mais para o conhecimento do processo da farinha, na visão da diretora. Por isso, já foram pensadas novas propostas de rotas de turismo dentro das comunidades das famílias produtoras.


Motivo de orgulho

Segundo Vinícius Oliveira, secretário municipal de Cultura e Turismo de Bragança, o registro do IG da farinha agregará muitos valores, tendo em vista que os municípios trabalharão ainda mais na qualificação e na capacitação dos agricultores, principalmente nos agricultores familiares, que têm papel importantíssimo na produção da farinha de Bragança. Vinícius afirma que grande parte da economia da


região vem da produção da farinha, o que significa que o selo vai aumentar a importância desse alimento para a população.

“O meu sentimento em relação a esse reconhecimento é o sentimento de todo o povo da região bragantina: orgulho. A farinha talvez seja o nosso produto mais famoso. Quando nós vemos a nossa farinha sendo apresentada em programas de gastronomia por grandes chefs nacionais e internacionais, realmente é algo que dá muito orgulho. Assim como o povo de Portugal fala do seu vinho e o povo de Minas Gerais fala do seu queijo, hoje nós podemos falar que a nossa farinha é genuinamente bragantina”, celebrou o secretário.

Sócio, fundador e secretário da Cooperativa Mista de Agricultores Familiares dos Caetés (Coomac), Giovani Medeiros garante que o registro fortalece o modo de saber fazer do agricultor. “A gente espera que venha impactar economicamente também na vida do agricultor, para que ele fique mais feliz vendendo o seu produto com orgulho, produzindo com mais gosto e com mais amor. Nós já fazemos tudo com muito orgulho, mas creio que agora isso vai ser ainda maior, porque hoje temos uma farinha reconhecida”, diz.


Histórico

A relação entre Bragança e a produção de farinha de mandioca é tão antiga quanto a origem do município, há 408 anos. Existe como parte do cotidiano dos indígenas que viviam na região.

A partir do final do século XIX, o produto ganhou mais espaço com migrantes do Nordeste do Brasil, que foram para a região com o objetivo de formar núcleos agrícolas e exportar a produção de farinha por via férrea. Com o passar dos anos, a produção se ampliou para municípios vizinhos de Bragança que também compõem a área delimitada da IG.

Há um método específico para o preparo da farinha de mandioca de Bragança, que é uma farinha d’água. O nome se justifica porque a mandioca precisa passar por um período de fermentação de quatro a cinco dias, de molho em reservatórios, antes de ser descascada e colocada novamente de molho por mais 24 horas em água limpa.

Em seguida, o produto é triturado e colocado no tipiti (utensílio indígena que funciona como uma prensa) ou em prensa comum, quando são separados o líquido

(tucupi) e a massa da mandioca, escaldada e torrada em seguida em forno pré- aquecido.

Os cinco municípios da região bragantina produzem juntos em torno de 32 mil toneladas de farinha por ano. Em suas 13 mil casas de farinha, trabalham cerca de dez mil produtores locais.

A produção da farinha de mandioca se dá pela manutenção da produção tradicional desenvolvida por mestres farinheiros nativos da região, o que fez com que o produto alcançasse reconhecimento nacional e internacional. Assim, a farinha de mandioca é um patrimônio imaterial, símbolo da história e parte da cultura popular de Bragança.