Camarão: sabor, renda e tradição paraense

Estrela de pratos típicos e sofisticados, o fruto do mar é muito procurado pelos paraenses

“O camarão está sempre presente na minha mesa. Meus filhos adoram e eu amo cozinhar. Pelo menos duas vezes ao mês a gente come camarão.” A declaração é da contadora Claudiceia Cavalcante (43), uma apaixonada por camarão. Para ela, o fruto do mar representa mais que culinária. “É uma forma de lembrar da infância, da família, da minha cidade. Sempre que eu posso, faço uma receita com camarão na massa, ao molho branco, na salada ou no vatapá”, disse.


Criada no interior de Soure, onde a pesca é a principal fonte de renda das famílias, Claudiceia conhece o processo de pesca do camarão e confirma o alto valor que o fruto do mar possui atualmente. “Na minha época o camarão era acessível, às vezes eu ia com o meu pai pegar camarão. Hoje está muito caro, mas eu entendo o preço porque eu sei como é o processo de pesca. A jornada do camarão até chegar na nossa mesa não é fácil, por isso sai caro mesmo, mas a gente compra porque gosta”, declarou.


Em pratos típicos paraenses, como tacacá e vatapá, em criativas receitas de chefs ou mesmo em pratos mais sofisticados, o camarão faz sucesso no Brasil e no mundo. Do Ver-O-Peso aos grandes restaurantes e na mesa do consumidor, esse produto movimenta a economia.


“No Brasil, a produção de camarão vinha crescendo ano após ano, tornando-se um produto com poder de movimentar a economia local e nacional. Especificamente no norte do país, em Belém do Pará, o consumo de camarão vinha crescendo ao longo dos anos devido à procura por alimentos mais saudáveis e por ser um produto de sabor único. Assim, com este contínuo crescimento do consumo, o camarão vem movimentando a economia do Estado, tanto internamente quanto através da exportação do produto para outros países. Além da movimentação da economia, o camarão é um produto gerador de empregos”, explicou o economista Fernando Neto.

Na foto, o economista Fernando Neto (Crédito da foto: Arquivo pessoal).

De acordo com Fernando, por ser um produto muito procurado e de pesca trabalhosa, o camarão se torna caro. “Pode-se pontuar dois aspectos chaves: a insuficiência da produção e a desvalorização do real. A produção interna é insuficiente para atender às necessidades do mercado brasileiro, evidenciando que a produção não acompanhou o aumento do consumo. Desta forma, como a demanda é mais elevada do que a oferta do produto, o preço aumenta. Quanto à desvalorização da moeda corrente (o real), isto favorece a exportação do produto, sendo mais rentável vender para o mercado externo. Em linhas gerais, a pandemia também afetou o mercado de camarão, pois o fluxo econômico dos Estados brasileiros acabou reduzindo por conta do fechamento de algumas atividades econômicas”, informou o economista. Em Belém, o preço do camarão varia de 35 a 55 reais o quilo, valor elevado para as pessoas que tiveram redução na renda, assinalou.


A rotina de camaroeiro


Morador de Soure, na ilha do Marajó, Michel Silva trabalha com a pesca de camarão há 20 anos. Influenciado pela sogra – também camaroeira –, o pescador conta como é o trabalho. “Eu pesco o camarão e esse é repassado ao meu cunhado para vender. Nesse trabalho existem os pescadores que repassam o camarão para marreteiros e outros que vendem o próprio camarão. Muitas vezes o camarão pescado em Soure é vendido em Salvaterra ou aqui mesmo”, contou.

Michel Silva, camaroeiro há mais de 20 anos (Crédito da foto: Arquivo pessoal).

Estudante de Contabilidade na Universidade Federal do Pará (UFPA), campus Soure, Michel pesca camarão três vezes por semana e os lucros são uma renda extra. “No momento essa não é a minha renda principal, mas existem camaroeiros que sobrevivem só do camarão e auxílios do governo como o seguro-defeso e o bolsa família.”


O pescador ainda destaca o desafios da profissão. “O maior desafio desse trabalho é aprender a trabalhar com as fases da maré. Quando a maré lança (que são as águas grandes de março e abril). não podemos deixar o material na água”, disse.


Para Michel, é necessário que haja políticas de valorização para esse segmento. “Os pescadores de camarão são desassistidos pelas entidades representativas e o seu pescado não é beneficiado porque, na maioria dos casos, os sócios das entidades não são pescadores. Por isso, eu acho que esse trabalho é muito desvalorizado”, relatou.


Períodos de pesca


De acordo com Michel, a pesca de camarão em Soure se dá em dois momentos: na pescaria de inverno e na pescaria de verão. Na primeira, feita de janeiro a julho, a água está salobra e é comum o uso de matapi (armadilha em formato cilíndrico feita com tala de palmeiras, jacitara, garrafas plásticas ou PVC) em que se coloca as balizas (vara de taboca ou bambu) na margem do igarapé e se amarra o matapi. Depois disso, coloca-se a isca, feita com farelo de babaçu. Na pescaria de inverno, o camaroeiro despesca os matapis um dia depois de colocar as iscas.


Já na pescaria de verão, que ocorre de julho a dezembro, as chuvas cessam e a água do igarapé começa a ficar salgada, por isso os pescadores iniciam outros tipos de pesca do camarão: a pesca com tarrafa e a pesca de arrastão, por causa do aparecimento de outra espécie de camarão, o liso.


Torra do camarão


Sabe aquele camarão salgado que você compra? Pois é, existe um processo especial para chegar nesse ponto: a torra. Depois de pescado, o camarão é levado para uma barraca construída nas margens do igarapé para ser torrado (cozido com vapor de água e sal). Em seguida é medido no litro e vendido nas feiras ou entregue aos marreteiros no dia seguinte.



Existem inúmeras receitas com o camarão. Uma das preferidas de Claudiceia é a massa ao molho branco. E para quem ficou curioso, aí vai a receita.



Ingredientes para a massa de camarão ao molho branco

• 500g de camarão seco

• 1 pacote de massa (penne) 500g

• ½ pote de requeijão

• 1 creme de leite

• 1/2 litro de leite líquido

• 1 azeite de oliva

• ½ cebola picada

• 2 tomates sem pele (picados)

• 2 pimentinhas (picadas)

• Alho (a gosto)

• ½ maço de cheiro verde

• Açafrão (a gosto)

• Pimenta cominho (a gosto)

• Duas colheres de margarina ou manteiga

• Três colheres de trigo

• 1 caixa de seleta de milho e ervilha

• 1 pacote de queijo ralado

• Sal (a gosto)



Modo de preparo da massa

Coloque a massa (penne) para cozinhar de acordo com as instruções da embalagem. Com a massa pronta, escorra e reserve.



Modo de preparo do camarão

• Com os camarões já descascados, coloque-os de molho por aproximadamente duas horas para retirar o sal.


• Em uma panela coloque a cebola, o tomate sem pele, as pimentinhas e o alho para fritar com o azeite de oliva. Adicione o camarão, a pimenta cominho, o açafrão e, por último, o cheiro verde. Depois de frito, desligue o fogo e coloque a seleta já escorrida. Reserve.



Modo de preparo do molho branco

• Em uma panela coloque meia cebola picada, e frite com manteiga até dourar. Adicione o trigo e mexa até dissolver (cuidado para não empelotar!). Depois coloque o leite líquido e mexa até engrossar e ficar cremoso. Apague o fogo, adicione o creme de leite e o requeijão e misture até ficar homogêneo. Agora é só adicionar o camarão!


Em um refratário, disponha a massa e acrescente o molho já com o camarão. Misture. Tudo pronto, é só colocar o queijo ralado e servir. Rende oito porções.