top of page

Entre o bloco e o banquete: a comida na história do carnaval

Crédito da foto: arquivo pessoal.
Crédito da foto: arquivo pessoal.

Domingo de Carnaval. Você aí, lendo este texto talvez entre um bloquinho e outro, mas já parou para pensar o quanto a alimentação está relacionada ao Carnaval? Como eu adoro contar histórias, vamos mergulhar nesse bloco e entender o quanto a comida faz parte dos momentos mais simples, e também mais intensos, da nossa vida.


Muito antes de o Carnaval estar associado às festas cristãs, suas raízes já estavam ligadas a celebrações pagãs de fertilidade e abundância. Na Grécia, os Bacanais; em Roma, as Dionisíacas. Eram grandes banquetes regados a vinho, comida farta e atividades que exaltavam os desejos humanos. Esses encontros iam muito além da refeição: eram eventos cruciais para a coesão social, política e cultural. Funcionavam como demonstrações de poder e status entre patrícios romanos, como espaços de debate intelectual nos simpósios gregos e como rituais que reforçavam hierarquias. Comidas exóticas, longas horas de festa, superstições e até reflexões sobre a morte faziam parte desse ambiente intenso e simbólico.


Na Babilônia, duas festas possivelmente influenciaram o que hoje conhecemos como Carnaval. As Sacéias eram celebrações em que um prisioneiro assumia, por alguns dias, o papel do rei, vestindo-se como ele e alimentando-se como ele. Outro ritual ocorria próximo ao equinócio da primavera, durante o Ano-Novo mesopotâmico, no templo de Marduk. Nesse rito, o rei era despojado de seus símbolos de poder e humilhado diante da divindade, demonstrando sua submissão. Em seguida, reassumia o trono. Perceba como a inversão de papéis, o excesso e a simbologia da comida já estavam presentes.


Com a ascensão da Igreja Católica, essas celebrações ganharam novo significado. O objetivo era preparar os fiéis para os 40 dias de jejum e oração da Quaresma. O Carnaval tornou-se, então, a última oportunidade para consumir alimentos ricos e gordurosos antes do período de restrição. Da expressão latina carnis levare, “afastar-se da carne”, surge a ideia do Carnaval como despedida dos excessos. A Igreja buscava organizar esse momento de extravasamento antes da severidade religiosa, embora continuasse condenando os exageros mais intensos.


Na Itália, por exemplo, era comum consumir a frictilia, doce frito na banha de porco feito com ovos e farinha, distribuído nas ruas durante o Carnaval. Segundo a engenheira de alimentos Sandra Mian, até a Renascença era típico preparar crepes e waffles nesse período, pois durante a Quaresma não se podia consumir carne, ovos, leite ou manteiga. A Europa era majoritariamente católica, e o cumprimento dessas regras era rigoroso, sob pena de castigos físicos, prisões e humilhações públicas.


O historiador inglês Peter Burke, no livro Variedades de História Cultural, descreve o consumo maciço de carne, panquecas e waffles que atingia o auge na terça-feira gorda. Na Inglaterra do século XVII, falava-se em “tanto cozer e grelhar, tanto torrar e tostar, tanto ensopar e fermentar, tanto assar, fritar, picar, cortar, trinchar, devorar e se entupir”, como se as pessoas consumissem de uma só vez as provisões de dois meses. Era o excesso como rito coletivo.


No Brasil, o Carnaval ganha proporções gigantescas e se transforma em uma das maiores expressões culturais do país. Aqui, a alimentação assume um papel prático e estratégico. Entre um bloco e outro, o foco é energia rápida e hidratação. Lanches de rua como coxinha, pastel e espetinho fazem parte da tradição, mas frutas, sanduíches naturais e muita água são essenciais para evitar desidratação e mal-estar. Depois da festa, entram em cena os caldos reconfortantes, caldo de feijão, caldo de tucupi, e preparações ricas em carboidratos, que ajudam a repor energia. Já pratos mais pesados, como feijoada ou churrasco, apesar de prazerosos, podem aumentar o cansaço e dificultar o retorno à folia.


No fim das contas, o Carnaval sempre esteve profundamente ligado à comida. Seja nos banquetes da Antiguidade, nos rituais religiosos, nos doces fritos das ruas italianas ou nos caldos que curam a ressaca brasileira, alimentar-se nunca foi apenas uma necessidade biológica. Comer é celebrar, é marcar ciclos, é extravasar, é reunir pessoas em torno de uma experiência coletiva.


Talvez seja por isso que, entre um passo de samba e outro, a gente sempre encontre um prato, um copo ou um cheiro de comida no ar. Porque o Carnaval, assim como a vida, também se faz à mesa.


Comentários


bottom of page