Comida que faz bem ao coração
- Kenny Nogueira

- há 2 dias
- 3 min de leitura

Olá Estranhos! Sabe aquelas receitas que dão um toque lá no coração? Aquelas receitas que trazem à memória um aperto ou um quentinho que só quem sente sabe o quanto é bom. Esses dias falei muito sobre ter que voltar, fazer a diferença na cozinha, e hoje quero falar sobre o porquê de cozinharmos, muitas vezes.
Foi na Grécia e em Roma que o alimento deixou de ser apenas uma necessidade biológica e passou a ganhar outro status. Surge a era dos banquetes e o conceito de hospitalidade, onde o ato de servir está relacionado ao status social e à qualidade dos pratos apresentados. É nesse período que surgem os cozinheiros interessados em mostrar toda a sua habilidade, tanto na estética quanto no sabor, buscando impressionar o convidado.
E por que eu falo sobre alimentos que aquecem o nosso coração? Existe o conceito de comfort food (ou “comida de conforto”), que vai muito além do sabor: trata-se de pratos que despertam memórias afetivas, trazendo sensação de acolhimento, bem-estar e nostalgia. Geralmente associados à infância, à família ou a momentos marcantes da vida, esses alimentos costumam ser simples, caseiros e emocionalmente significativos, como uma sopa feita pela avó, um prato típico regional ou aquela receita que remete a um lugar especial. Mais do que nutrir o corpo, a comfort food alimenta as emoções, funcionando quase como um “refúgio” gastronômico em momentos de necessidade emocional.
Seguindo esse conceito, quem não tem um prato que dá aquela aquecida no coração? Por exemplo, há um prato que, toda vez que faço, me lembra minha avó: uma macarronada feita com carne moída, em uma espécie de vatapá. Nunca vi ninguém fazer, a não ser minha avó e, hoje, minhas tias. Não sei explicar, parece algo totalmente absurdo, vatapá com carne, mas, quando provo, parece que vejo minha avó em pé na porta da casa dela.
Sempre digo que minha mãe não era cozinheira, e ela sempre deixou claro que não gostava de cozinhar. Comecei a cozinhar para tentar agradá-la, e pense em um trabalho difícil. Mas era quase sagrado: no final de semana, ela fazia um frango no tucupi. Não tinha nada demais, mas, quando sinto o cheiro de tucupi, me vêm à memória justamente os sábados em que eu largava tudo para estar com ela.
Chega das minhas histórias… mas nós fomos criados para valorizar a comida da nossa avó ou da nossa mãe. Boa parte da nossa influência gastronômica vem dos árabes, e eles usam uma frase para elogiar uma comida: “Sua comida é tão gostosa quanto a da minha mãe”. Apesar de sermos uma sociedade patriarcal, sempre voltamos ao nosso lugar de conforto. Voltamos às panelas e às receitas que aquecem o coração.
Quem aqui nunca falou: “A maniçoba da minha mãe é a melhor”? O que eu quero dizer é justamente isso: a melhor forma de redescobrir quem somos na cozinha é voltar para onde a comida aquece nosso coração, é onde redescobrimos o porquê de cozinharmos.
A Paola Carosella fala disso em seu livro Todas as Sextas, quando conta da imagem da sua avó cozinhando massa no final de semana. O chef Rodrigo Oliveira também fala de como seu pai construiu o Mocotó tentando resgatar sua própria origem nordestina. Enfim, nós cozinhamos não apenas para saciar a fome, mas porque construímos histórias a partir de um prato. Um prato tem o poder de tocar o nosso coração; às vezes, é um detalhe que nos faz sentir diferente.
Por isso voltamos à Grécia e a Roma: não servimos apenas um prato. Estamos aqui para proporcionar experiências gastronômicas, fazer com que nossos clientes voltem, não apenas porque cobramos barato, mas porque geramos experiências inesquecíveis ou despertamos afeto. E não estou dizendo que isso precisa ser caro. Já comi em lugares caros que preferia esquecer. O que estou dizendo é que a nossa comida não deve tocar apenas no bolso, mas também no coração.
Sempre digo aos meus alunos que eles precisam se divertir na cozinha. Mas imagine o cliente que sai de casa para viver algo inesquecível. E quem vai proporcionar isso? Você, cozinheiro. Se não colocarmos esse mesmo sentimento no nosso prato, seremos chefs esquecíveis. E é isso que você quer?
Mais uma vez, termino com a seguinte reflexão: precisamos voltar para onde tudo começou todos os dias, porque cozinhar ultrapassa os limites da cozinha.
Uma boa semana a todos!




Comentários