Entre panelas, fé e memória: a trajetória do chef Joe Monteiro na gastronomia paraense
- Gastronomia Paraense

- há 3 dias
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Em Belém do Pará, onde a culinária carrega identidade, afeto e tradição, o chef Joe Monteiro constrói uma trajetória marcada por propósito, sensibilidade e conexão com as raízes. Atualmente atuando como chef de cozinha no Clube do Remo, ele transforma ingredientes simples em experiências que vão muito além do paladar.
Desde cedo, a cozinha já fazia parte da sua vida — não como profissão, mas como herança familiar. Crescido entre mulheres que encontravam na comida uma forma de cuidado, Joe foi profundamente influenciado por figuras como sua avó Selma, sua vó Salomé e, especialmente, sua bisavó Isaura, uma mulher ribeirinha do rio Moju que desempenhava múltiplos papéis na comunidade. Parteira, professora, comerciante, enfermeira e agricultora, ela representava força, sabedoria e dedicação — valores que hoje também se refletem na forma como ele enxerga a gastronomia.

Ainda na infância, as brincadeiras já revelavam o caminho que viria a seguir. Ao lado dos primos, fazia “comidinhas” de terra, reproduzindo o que via dentro de casa. Com o passar dos anos, apesar de ter sido aprovado em cursos de Letras em instituições como UEPA, UFPA e UFRA, e até conquistar bolsa pelo ProUni, Joe decidiu ouvir o próprio coração e seguiu para a Gastronomia, ingressando na UNAMA. Foi ali que consolidou sua escolha e deu início à sua jornada profissional.
Hoje, além do trabalho como chef, Joe também atua como personal chef, oferecendo experiências gastronômicas personalizadas, com cardápios pensados de acordo com o perfil de cada cliente. Paralelamente, dedica-se à realização de um antigo sonho: a criação de uma cafeteria. O projeto, ainda em fase de estruturação, nasce com a proposta de ser mais do que um espaço de consumo — um ambiente de acolhimento, conversa e conexão.
A essência do seu trabalho está na valorização da comida caseira. Para ele, não são necessárias técnicas complexas para tocar as pessoas, mas sim intenção, cuidado e respeito pelos ingredientes. Pratos simples, como o tradicional arroz com feijão, ganham protagonismo por carregarem memória afetiva e identidade cultural. “É o tipo de comida que acolhe, que faz a pessoa se sentir em casa”, resume.
Na cozinha, alguns elementos são indispensáveis: alho e cheiro-verde fazem parte da sua assinatura. Ainda assim, ele reconhece a importância de adaptar seu preparo ao público, especialmente ao lidar com atletas, respeitando preferências e necessidades alimentares. Esse equilíbrio entre identidade e sensibilidade é um dos pilares do seu trabalho.

Ao longo da trajetória, Joe também enfrentou desafios importantes. Desde preconceitos relacionados à escolha da profissão até questionamentos sobre sua fé cristã, ele precisou se posicionar e permanecer firme em seus princípios. Decidir deixar um curso tradicional para seguir a gastronomia também foi um momento marcante. Hoje, ele enxerga cada obstáculo como parte essencial do seu crescimento.
Mas é na vivência do dia a dia que estão algumas das experiências mais significativas. Em muitos momentos, a cozinha se tornou espaço de escuta, acolhimento e até oração. Pessoas que se aproximam não apenas em busca de alimento, mas também de palavras, conselhos e conforto. Em outras ocasiões, a comida despertou emoções profundas — como o colega que se emocionou ao provar um bolo de tapioca que lembrava sua avó, ou o atleta que reconheceu no feijão o sabor da comida de casa.
Esses episódios reforçam aquilo que Joe acredita: cozinhar é também cuidar. Especialmente ao lidar com jovens atletas longe de suas famílias, ele encontra na comida uma forma de oferecer acolhimento e criar vínculos.

Apaixonado por educação, ele também vê na gastronomia uma oportunidade de ensinar e compartilhar conhecimento. Explicar a origem dos pratos, valorizar os ingredientes regionais e contar histórias são práticas constantes no seu dia a dia. Para ele, comer é também entender, reconhecer e se conectar com a cultura.
Para o futuro, Joe deseja continuar se especializando, ampliar sua formação com áreas como Nutrição ou Tecnologia de Alimentos e participar de concursos e festivais gastronômicos. Mais do que reconhecimento, ele busca propósito: usar a gastronomia como ferramenta de transformação social, levando alimento, ensino e cuidado a quem precisa.
Sua mensagem para quem sonha em seguir na área vai além da técnica. “Cozinhar é sobre intenção, constância e propósito”, afirma. Inspirado por sua fé, ele acredita na mesa como um lugar de encontro, memória e comunhão. Uma visão que se traduz não apenas em pratos, mas em experiências que alimentam o corpo e também o coração.

A história de Joe Monteiro é, acima de tudo, um lembrete de que a gastronomia pode ser uma ponte entre pessoas, lembranças e sentimentos — e que, quando feita com propósito, ela se torna uma verdadeira forma de servir.




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