A memória que vive nas margens
Gastronomia Paraense

Existe uma Amazônia que quase sempre aparece quando falamos de território: a floresta distante, as comunidades ribeirinhas, as aldeias, os rios, as áreas de mata. Mas existe outra Amazônia, menos lembrada e igualmente reveladora: aquela que cresceu nas bordas das cidades.
Nas grandes cidades amazônicas, aquilo que hoje chamamos de periferia muitas vezes está associado a uma ideia de distância. Distância do centro, dos serviços, da infraestrutura, das oportunidades e, muitas vezes, daquilo que se convencionou chamar de desenvolvimento.
Mas talvez seja necessário olhar para essas áreas por outra perspectiva.
Porque, em muitos casos, elas não são simplesmente lugares que surgiram depois da cidade. São territórios que carregam histórias muito anteriores à cidade que conhecemos.
Durante o processo de colonização da Amazônia, a ocupação europeia avançou sobre territórios que já eram habitados por diferentes povos indígenas. A expansão dos núcleos urbanos, das missões, das fazendas e das atividades econômicas alterou profundamente a relação desses povos com seus territórios.
E aqui existe uma reflexão que considero importante: à medida que o centro avançava, muitos povos eram empurrados para as margens.
Séculos depois, a lógica espacial das cidades amazônicas ainda apresenta marcas dessa história.
Hoje, quando olhamos para determinadas áreas afastadas dos centros urbanos, encontramos bairros populares, ocupações, comunidades e periferias. Mas, dentro desses territórios, continuam existindo práticas, saberes e símbolos que não nasceram com a cidade moderna.
Um dos exemplos mais interessantes está no Paracuri, em Icoaraci, Belém.
O bairro é reconhecido pela tradição ceramista que se consolidou ao longo do tempo e que hoje constitui uma importante referência cultural e econômica de Icoaraci. Estudos sobre a produção cerâmica do local mostram como essa atividade está relacionada à história da ocupação de Icoaraci e à permanência e reinvenção de referências indígenas na produção artesanal.
Ali, a argila vira memória.
Os grafismos inspirados em tradições indígenas, especialmente aqueles associados à estética marajoara, aparecem em vasos, pratos, urnas, objetos decorativos e peças que atravessaram gerações. A cerâmica produzida no Paracuri não é simplesmente uma mercadoria: ela também funciona como uma forma de narrar o território.
E isso nos leva novamente à gastronomia.
Porque a cultura alimentar também é uma forma de ocupação territorial.
Quando uma população é deslocada, não desaparecem automaticamente os seus conhecimentos. Eles podem mudar de forma.
Podem ser adaptados. Podem se misturar com outras culturas. Podem até ser transformados em produto comercial.
Mas continuam existindo.
Uma farinha, uma técnica de defumação, uma forma de preparar o peixe, o uso de determinada folha, uma maneira de construir um forno, uma bebida, uma receita transmitida oralmente ou mesmo o modo como determinada comunidade se relaciona com a mandioca podem carregar uma história muito maior do que aquilo que aparece no prato.
É por isso que falar de gastronomia amazônica exige falar de território.
Não existe culinária amazônica sem floresta, rio, várzea, terra firme, cidade, deslocamento, migração e conflito. E também não existe sem resistência.
A própria cerâmica do Paracuri demonstra isso.
A tradição ceramista da região passou por transformações e incorporou diferentes influências ao longo do tempo. A produção contemporânea não é uma reprodução congelada de um passado indígena. É uma tradição viva, que foi reinterpretada por diferentes gerações e transformada em trabalho, identidade e fonte de renda.
Isso é importante porque existe uma tendência de imaginar a cultura indígena como algo que pertence exclusivamente ao passado.
Como se o indígena estivesse sempre na fotografia antiga, na peça arqueológica ou no museu.
Mas talvez seja preciso procurar o indígena também na periferia.
Na panela.
Na farinha.
No peixe.
Na cerâmica.
No grafismo.
Na festa.
Na maneira de produzir.
Naquilo que uma avó ensina para uma criança.
E até mesmo naquilo que uma comunidade transforma em profissão para continuar existindo.
O Paracuri nos mostra uma dessas contradições amazônicas: um território localizado distante do centro, marcado por problemas urbanos e por décadas de pouca infraestrutura, também é um dos lugares onde uma importante tradição cultural conseguiu permanecer viva.
Talvez seja justamente aí que esteja uma das grandes ironias da nossa história.
Durante séculos, a margem foi tratada como lugar de afastamento.
Hoje, quando olhamos com mais atenção, percebemos que muitas dessas margens guardam aquilo que o centro perdeu.
Guardam técnicas.
Guardam sabores.
Guardam palavras.
Guardam formas de produzir.
Guardam símbolos.
Guardam histórias.
E guardam uma relação com o território que a cidade contemporânea muitas vezes já não consegue perceber.
Por isso, quando caminhamos por uma periferia amazônica, talvez devêssemos abandonar por alguns instantes a ideia de que estamos diante de um lugar sem história.
Pode ser justamente o contrário.
Talvez estejamos diante de um território onde a história sobreviveu de maneira menos oficial.
E a gastronomia tem uma responsabilidade enorme nesse processo.
Não apenas de reproduzir ingredientes amazônicos em pratos sofisticados, mas de compreender de onde esses ingredientes vêm, quem conhece seus usos, quais povos construíram esses saberes e como eles chegaram até a mesa.
Porque colocar um ingrediente amazônico em um prato não significa, necessariamente, contar a Amazônia.
Contar a Amazônia é entender o território que existe por trás dele.
E talvez essa seja uma das maiores riquezas da nossa cozinha: perceber que, muitas vezes, o que chamamos de periferia não é o fim da cidade.
É o lugar onde uma parte da memória começou a sobreviver.





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