Da Itália ao Pará: quando a gastronomia vira patrimônio e aponta caminhos para o mundo
- Gastronomia Paraense

- 17 de dez. de 2025
- 3 min de leitura

A trajetória internacional do chef, consultor gastronômico e formador Nino Gagliano oferece uma perspectiva privilegiada sobre cultura alimentar, identidade territorial e valorização de produtos locais. Com experiência profissional entre a Itália, a Escandinávia, a América Latina e o Brasil, ele construiu uma leitura ampla sobre como as gastronomias se fortalecem quando assumem, de forma consciente, suas raízes e narrativas.
O ponto de partida dessa reflexão é o reconhecimento da culinária italiana como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade pela UNESCO — a primeira do mundo a receber esse título. Segundo Gagliano, o mérito não está apenas na popularidade de pratos icônicos, mas na compreensão da gastronomia como um sistema cultural vivo, formado por tradições, gestos, territórios, estações do ano, famílias, artesãos e produtores.
A partir desse marco histórico, o chef direciona o olhar para a culinária paraense, no norte do Brasil. Ainda pouco conhecida no cenário internacional, ela é descrita como uma das mais ricas e autênticas expressões gastronômicas do país. Ingredientes como tucupi, jambu, peixes de água doce e a mandioca, presente em múltiplas formas, carregam narrativas profundas de ancestralidade, território e identidade cultural.
Para Nino Gagliano, o momento vivido pela gastronomia do Pará guarda semelhanças com a realidade italiana de décadas atrás. Antes de alcançar reconhecimento global, a Itália precisou fortalecer o orgulho sobre suas tradições, proteger seus produtos regionais e estruturar uma narrativa cultural consistente. Esse mesmo caminho, avalia o chef, está aberto à culinária paraense.

Mais do que uma análise conceitual, o especialista destaca a importância de ações práticas para transformar potencial em posicionamento internacional. Entre os pontos centrais está a valorização das histórias locais, capazes de criar conexão emocional com o consumidor, e o compromisso com a qualidade constante dos produtos, fator decisivo para a confiança do mercado externo.
A atenção às embalagens também aparece como elemento estratégico. Materiais sustentáveis, informações claras e design funcional contribuem para a percepção de valor e profissionalismo. Da mesma forma, certificações como selos orgânicos, de comércio justo ou de indicação geográfica ampliam o acesso a novos mercados e reforçam a responsabilidade social e ambiental.
Outro aspecto apontado é a criação de parcerias com chefs e restaurantes, que funcionam como vitrines naturais dos ingredientes regionais. O uso consciente do storytelling digital, por meio das redes sociais, é visto como ferramenta essencial não apenas para vender, mas para educar o público e apresentar formas de uso dos produtos amazônicos.
A oferta de experiências imersivas, como degustações, visitas guiadas e workshops, aparece como estratégia para aproximar o consumidor da origem dos alimentos. Paralelamente, a adaptação às exigências internacionais — incluindo traduções adequadas e cumprimento das normas sanitárias — é considerada indispensável para a expansão sem perda de identidade.

A construção de redes entre produtores locais também é destacada como fator de fortalecimento coletivo. Consórcios, marcas compartilhadas e iniciativas conjuntas reduzem custos, ampliam escala e aumentam a credibilidade dos produtos no mercado. Por fim, a inovação surge como aliada, desde que preserve a essência dos ingredientes e respeite sua origem cultural.
Na avaliação de Nino Gagliano, a culinária paraense reúne todos os elementos necessários para conquistar espaço no cenário global. O desafio está em transformar riqueza cultural em estratégia, aliando visão, estrutura, orgulho e coragem para reconhecer a própria gastronomia como patrimônio vivo e competitivo.











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