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Do quilombo no interior do Pará para o mundo: Marizete Chaves transforma memórias da infância em identidade gastronômica



créditos da foto: arquivo pessoal.
créditos da foto: arquivo pessoal.

Antes mesmo de conhecer as técnicas da gastronomia profissional, Marizete Chaves já conhecia a cozinha como parte da própria vida. Nascida em uma família de agricultores no quilombo Aquicaeté, em Caeté, no interior do Pará, ela cresceu entre a roça, os irmãos e o fogo improvisado onde era preparada a comida da família.


Primogênita, ainda criança assumiu responsabilidades que ajudariam a construir, anos mais tarde, sua relação com a gastronomia. Aos 11 anos, deixou Caeté para morar na capital, em uma realidade completamente diferente daquela que conhecia. Foi nesse período que começou a aprender, na prática, os primeiros segredos da cozinha.


Na casa onde passou a viver, auxiliava a mulher que se tornaria sua “mãe do coração”. Cortava temperos, lavava louça e, principalmente, observava atentamente cada preparo. Aos 18 anos, recebeu dela o avental e assumiu a cozinha.


“Passei a fazer tudo e mais um pouco do que ela me ensinou”, conta Marizete.



O talento começou a ultrapassar os limites da família. Vieram os convites de parentes e amigos para cozinhar. Pouco tempo depois, ela foi contratada para ministrar aulas de culinária para jovens e senhoras em situação de vulnerabilidade no Centro de Pastoral da Igreja da Conceição. Foi também quando passou a receber salário pelo trabalho na cozinha e percebeu que aquela paixão poderia se transformar em profissão.


Da cozinha aprendida na prática à formação profissional


A experiência adquirida ao longo dos anos ganhou posteriormente o conhecimento técnico. Marizete se formou em Gastronomia e também fez pós-graduação na área.


Para ela, a formação profissional não apagou os ensinamentos da infância. Pelo contrário: acrescentou técnica ao conhecimento que já carregava.


“A formação me fez ver a cozinha com olhar técnico. Coisas que eu já havia feito do modo que aprendi, agora faço com as técnicas certas”, explica.


A trajetória, entretanto, não foi construída sem desafios. Um dos principais obstáculos foi a adaptação à vida na capital. Ainda muito jovem, Marizete precisou deixar para trás o ambiente familiar e rural que conhecia para viver com pessoas e em um lugar que nunca havia visto antes.


A mudança exigiu coragem e capacidade de adaptação, mas não fez com que ela abandonasse as próprias raízes.


Caeté como essência


Mesmo longe do lugar onde nasceu, Caeté permanece presente na forma como Marizete cozinha. As lembranças da infância se transformaram em referências de sabor, técnica e identidade.


Um dos preparos que mais representa essa conexão é o chamado “feijão da roça” ou feijão de corda, preparado com jerimum, quiabo, maxixe, vinagreira, cariru e peixe seco, como gurijuba ou pirarucu.


Mais do que uma receita, o prato funciona como uma espécie de memória afetiva.


A mandioca também ocupa lugar fundamental em sua identidade gastronômica. Da raiz, destaca ingredientes e produtos que fazem parte da alimentação paraense, como farinha, tucupi, fécula e folha.


Para Marizete, valorizar esses ingredientes é também reconhecer a riqueza da gastronomia amazônica.


Quando leva a culinária paraense para outros lugares, ela procura transmitir justamente essa mensagem: o Pará possui ingredientes, insumos e sabores capazes de ocupar espaço entre as grandes cozinhas do mundo.


Da cozinha do Pará à COP3


Se, no início da trajetória, Marizete sequer imaginava que seu trabalho poderia ultrapassar as fronteiras do estado, hoje algumas experiências mostram o tamanho do caminho percorrido.


Uma das mais marcantes foi integrar a equipe de um restaurante comandado pelo chef Saulo responsável pelos pré-preparos dos alimentos que seriam servidos à cúpula da COP30.


A experiência colocou a profissional diante de um dos maiores eventos internacionais realizados no Pará e reforçou a percepção de que a gastronomia paraense pode ocupar espaços de grande projeção.


O crescimento da culinária do estado, inclusive, é visto por ela de maneira positiva. Na avaliação da gastrônoma, o reconhecimento nacional e internacional da gastronomia paraense pode trazer novos investimentos e oportunidades para profissionais do setor.


Gastronomia como preservação cultural


Para Marizete, cozinhar vai muito além de preparar alimentos. Os profissionais da gastronomia também têm a responsabilidade de preservar e divulgar a cultura.


“Divulgamos sabores e saberes do nosso estado, utilizando insumos regionais e mantendo vivas as tradições”, afirma.


É por isso que ela defende maior valorização e respeito pelas tradições gastronômicas de Caeté e de outras comunidades do interior do Pará.


A expansão da gastronomia paraense, segundo ela, precisa caminhar junto com a preservação das origens. Afinal, os ingredientes e receitas que hoje despertam interesse fora do estado carregam histórias de comunidades, famílias e gerações.


Anhanga: um novo sonho


Aos 53 anos, Marizete define-se como uma mulher realizada. E, apesar de reconhecer tudo o que já conquistou, ainda mantém novos projetos.


Entre eles está o projeto Anhanga, que pretende reunir uma casa de farinha e experiências de vivência, aproximando as pessoas dos processos, saberes e tradições relacionados à produção e à cultura alimentar amazônica.


A proposta dialoga diretamente com a trajetória da própria gastrônoma: levar para o presente conhecimentos que nasceram no interior e mostrar que eles têm valor também no futuro.


Para quem está no interior do Pará e sonha em trabalhar com gastronomia, mas acredita estar distante das oportunidades, Marizete deixa um conselho baseado na própria experiência: coragem para sair da zona de conforto, vontade de aprender, persistência e humildade.


Ela sabe disso porque sua própria história começou longe dos grandes centros, quando ainda era criança e ajudava a cuidar dos irmãos enquanto uma panela cozinhava sobre o fogo improvisado na roça.


“Do interior do Pará para o mundo”


A expressão que resume sua trajetória não é apenas um slogan. É a síntese de mais de quatro décadas de experiências.


“Do interior do Pará para o mundo” significa, para Marizete, lembrar que saiu de Caeté aos 11 anos, trabalhou, conheceu pessoas e lugares e chegou aos 53 anos podendo afirmar que se sente realizada.


Ela nunca pensou em desistir da gastronomia. E talvez a razão esteja justamente na forma como enxerga a profissão.


Para Marizete, a gastronomia representa a maneira como será lembrada quando não estiver mais aqui.


Uma memória que não será construída apenas pelos pratos que preparou, mas também pelas histórias que carregou para cada cozinha, pelos ingredientes que ajudou a valorizar e pelas tradições que escolheu manter vivas.


E, ao resumir toda essa trajetória em uma única frase, ela escolhe duas palavras que parecem acompanhar cada etapa do caminho:


“Humildade e gratidão andam de mãos dadas.”



créditos da foto: arquivo pessoal.
créditos da foto: arquivo pessoal.

Antes mesmo de conhecer as técnicas da gastronomia profissional, Marizete Chaves já conhecia a cozinha como parte da própria vida. Nascida em uma família de agricultores no quilombo Aquicaeté, em Caeté, no interior do Pará, ela cresceu entre a roça, os irmãos e o fogo improvisado onde era preparada a comida da família.


Primogênita, ainda criança assumiu responsabilidades que ajudariam a construir, anos mais tarde, sua relação com a gastronomia. Aos 11 anos, deixou Caeté para morar na capital, em uma realidade completamente diferente daquela que conhecia. Foi nesse período que começou a aprender, na prática, os primeiros segredos da cozinha.


Na casa onde passou a viver, auxiliava a mulher que se tornaria sua “mãe do coração”. Cortava temperos, lavava louça e, principalmente, observava atentamente cada preparo. Aos 18 anos, recebeu dela o avental e assumiu a cozinha.


“Passei a fazer tudo e mais um pouco do que ela me ensinou”, conta Marizete.


O talento começou a ultrapassar os limites da família. Vieram os convites de parentes e amigos para cozinhar. Pouco tempo depois, ela foi contratada para ministrar aulas de culinária para jovens e senhoras em situação de vulnerabilidade no Centro de Pastoral da Igreja da Conceição. Foi também quando passou a receber salário pelo trabalho na cozinha e percebeu que aquela paixão poderia se transformar em profissão.


Da cozinha aprendida na prática à formação profissional


A experiência adquirida ao longo dos anos ganhou posteriormente o conhecimento técnico. Marizete se formou em Gastronomia e também fez pós-graduação na área.


Para ela, a formação profissional não apagou os ensinamentos da infância. Pelo contrário: acrescentou técnica ao conhecimento que já carregava.


“A formação me fez ver a cozinha com olhar técnico. Coisas que eu já havia feito do modo que aprendi, agora faço com as técnicas certas”, explica.


A trajetória, entretanto, não foi construída sem desafios. Um dos principais obstáculos foi a adaptação à vida na capital. Ainda muito jovem, Marizete precisou deixar para trás o ambiente familiar e rural que conhecia para viver com pessoas e em um lugar que nunca havia visto antes.


A mudança exigiu coragem e capacidade de adaptação, mas não fez com que ela abandonasse as próprias raízes.


Caeté como essência


Mesmo longe do lugar onde nasceu, Caeté permanece presente na forma como Marizete cozinha. As lembranças da infância se transformaram em referências de sabor, técnica e identidade.


Um dos preparos que mais representa essa conexão é o chamado “feijão da roça” ou feijão de corda, preparado com jerimum, quiabo, maxixe, vinagreira, cariru e peixe seco, como gurijuba ou pirarucu.


Mais do que uma receita, o prato funciona como uma espécie de memória afetiva.


A mandioca também ocupa lugar fundamental em sua identidade gastronômica. Da raiz, destaca ingredientes e produtos que fazem parte da alimentação paraense, como farinha, tucupi, fécula e folha.


Para Marizete, valorizar esses ingredientes é também reconhecer a riqueza da gastronomia amazônica.


Quando leva a culinária paraense para outros lugares, ela procura transmitir justamente essa mensagem: o Pará possui ingredientes, insumos e sabores capazes de ocupar espaço entre as grandes cozinhas do mundo.


Da cozinha do Pará à COP30


Se, no início da trajetória, Marizete sequer imaginava que seu trabalho poderia ultrapassar as fronteiras do estado, hoje algumas experiências mostram o tamanho do caminho percorrido.


Uma das mais marcantes foi integrar a equipe de um restaurante comandado pelo chef Saulo responsável pelos pré-preparos dos alimentos que seriam servidos à cúpula da COP30.


A experiência colocou a profissional diante de um dos maiores eventos internacionais realizados no Pará e reforçou a percepção de que a gastronomia paraense pode ocupar espaços de grande projeção.


O crescimento da culinária do estado, inclusive, é visto por ela de maneira positiva. Na avaliação da gastrônoma, o reconhecimento nacional e internacional da gastronomia paraense pode trazer novos investimentos e oportunidades para profissionais do setor.


Gastronomia como preservação cultural


créditos da foto: arquivo pessoal.
créditos da foto: arquivo pessoal.

Para Marizete, cozinhar vai muito além de preparar alimentos. Os profissionais da gastronomia também têm a responsabilidade de preservar e divulgar a cultura.


“Divulgamos sabores e saberes do nosso estado, utilizando insumos regionais e mantendo vivas as tradições”, afirma.


É por isso que ela defende maior valorização e respeito pelas tradições gastronômicas de Caeté e de outras comunidades do interior do Pará.


A expansão da gastronomia paraense, segundo ela, precisa caminhar junto com a preservação das origens. Afinal, os ingredientes e receitas que hoje despertam interesse fora do estado carregam histórias de comunidades, famílias e gerações.


Anhanga: um novo sonho


Aos 53 anos, Marizete define-se como uma mulher realizada. E, apesar de reconhecer tudo o que já conquistou, ainda mantém novos projetos.


Entre eles está o projeto Anhanga, que pretende reunir uma casa de farinha e experiências de vivência, aproximando as pessoas dos processos, saberes e tradições relacionados à produção e à cultura alimentar amazônica.


A proposta dialoga diretamente com a trajetória da própria gastrônoma: levar para o presente conhecimentos que nasceram no interior e mostrar que eles têm valor também no futuro.


Para quem está no interior do Pará e sonha em trabalhar com gastronomia, mas acredita estar distante das oportunidades, Marizete deixa um conselho baseado na própria experiência: coragem para sair da zona de conforto, vontade de aprender, persistência e humildade.


Ela sabe disso porque sua própria história começou longe dos grandes centros, quando ainda era criança e ajudava a cuidar dos irmãos enquanto uma panela cozinhava sobre o fogo improvisado na roça.


“Do interior do Pará para o mundo”


A expressão que resume sua trajetória não é apenas um slogan. É a síntese de mais de quatro décadas de experiências.


“Do interior do Pará para o mundo” significa, para Marizete, lembrar que saiu de Caeté aos 11 anos, trabalhou, conheceu pessoas e lugares e chegou aos 53 anos podendo afirmar que se sente realizada.


Ela nunca pensou em desistir da gastronomia. E talvez a razão esteja justamente na forma como enxerga a profissão.


Para Marizete, a gastronomia representa a maneira como será lembrada quando não estiver mais aqui.


Uma memória que não será construída apenas pelos pratos que preparou, mas também pelas histórias que carregou para cada cozinha, pelos ingredientes que ajudou a valorizar e pelas tradições que escolheu manter vivas.


E, ao resumir toda essa trajetória em uma única frase, ela escolhe duas palavras que parecem acompanhar cada etapa do caminho:


“Humildade e gratidão andam de mãos dadas.”

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