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O entregador de comida e o acionista

créditos da foto: arquivo pessoal.
créditos da foto: arquivo pessoal.

Quando um jovem sobe uma ladeira pedalando uma bicicleta para entregar um hambúrguer pedido pelo aplicativo, a cena parece simples. Mas ela não é.


Naquele instante, existe uma rede econômica gigantesca funcionando simultaneamente.


O entregador de comida e o acionista Quando um jovem sobe uma ladeira pedalando uma bicicleta para entregar um hambúrguer pedido pelo aplicativo, a cena parece simples. Mas ela não é.


Naquele instante, existe uma rede econômica gigantesca funcionando simultaneamente.


O entregador depende da plataforma digital e a plataforma depende dos restaurantes.


Os restaurantes dependem dos fornecedores e os fornecedores dependem das indústrias.


As indústrias dependem do sistema financeiro e o sistema financeiro depende do consumo.


E o consumo depende do trabalho de milhões de pessoas que, muitas vezes, sequer compreendem o papel que exercem dentro dessa engrenagem.


Talvez a maior ilusão do nosso tempo seja acreditar que existam vencedores isolados.


Na gastronomia, essa ilusão fica ainda mais evidente.


Vamos imaginar uma lanchonete de bairro.


O proprietário acredita ser independente. Afinal, abriu seu próprio negócio, criou seu cardápio e construiu sua clientela.


Porém observando mais profundamente, percebemos que sua autonomia possui limites muito claros.


A carne utilizada nos hambúrgueres vem de grandes frigoríficos.


O óleo utilizado na fritura é produzido por industrias.


As embalagens são fabricadas por grandes grupos do setor plástico e papel.


Os refrigerantes pertencem a multinacionais presentes em dezenas de países.


As maquininhas pertencem a instituições financeiras.


O aplicativo de entrega pertence a uma plataforma bilionária.


O dinheiro que entra no caixa percorre uma cadeia muito maior do que o pequeno salão consegue enxergar.


Milton Santos observava que a globalização não eliminou os lugares. Pelo contrário.


Ela transformou cada lugar em um ponto de conexão de interesses locais e globais.


A pequena hamburgueria da esquina parece local, mas suas relações econômicas são mundiais.


O que acontece em bolsas de valores, fundos de investimento e conglomerados internacionais influencia diretamente o preço do pão, da carne, do queijo e até da taxa cobrada pelo aplicativo.


O bairro tornou-se global e a globalização não acontece apenas através das mercadorias. Ela acontece através do trabalho.


Tomemos como exemplo o entregador por aplicativo.


Muitos discursos o apresentam como empreendedor e outros o apresentam como explorado.


Mas a realidade é mais complexa.


Ele é um trabalhador inserido em uma estrutura produtiva altamente sofisticada.


Ele utiliza um celular, depende da internet e segue rotas definidas por algoritmos.


Recebe demandas distribuídas por inteligência computacional.


Produz riqueza física circulando pelas ruas, enquanto a gestão do processo ocorre em centros corporativos muitas vezes localizados a milhares de quilômetros de distância.


Milton Santos chamava atenção para a existência de tempos hegemônicos e tempos hegemonizados.


Enquanto investidores acompanham gráficos e resultados trimestrais, o entregador acompanha o relógio para completar mais uma corrida.


Ambos participam do mesmo sistema, mas não participam dele da mesma forma.


Um controla os fluxos e o outro executa os fluxos.


Entretanto, existe uma contradição importante.


A elite econômica depende profundamente daqueles que raramente aparecem nos relatórios financeiros.


Nenhum fundo de investimento entrega refeições.


Nenhum acionista produz pão.


Nenhum algoritmo tempera uma panela de feijão.


Nenhuma plataforma assa uma pizza.


O trabalho concreto continua sendo indispensável.


É por isso que a gastronomia talvez seja uma das melhores lentes para compreender a sociedade.


Em poucos setores é possível enxergar com tanta clareza a interdependência entre as classes sociais.


O agricultor depende do caminhoneiro e o caminhoneiro depende do posto de combustível.


O posto depende das distribuidoras e a distribuidora depende do mercado internacional.


O restaurante depende de todos eles e o cliente depende do restaurante.


E todos dependem da estabilidade dessa rede. Quando um elo falha, toda a cadeia sente.


A pandemia deixou isso evidente.


Bastou interromper fluxos logísticos para faltar insumos.


Bastou reduzir a circulação de pessoas para comprometer milhares de negócios.


Bastou uma ruptura para revelar algo que sempre existiu: ninguém produz sozinho.


Milton Santos afirmava que o espaço contemporâneo foi organizado para favorecer os fluxos dominantes do capital.


Mas ele também lembrava que é no lugar que a vida acontece.


É no bairro, na feira, no mercado municipal, na padaria, na cozinha, no pequeno restaurante.


É nesses espaços que as relações econômicas ganham rosto humano.


Talvez por isso a gastronomia possua um valor muito maior do que alimentar pessoas.


Ela revela como a sociedade realmente funciona.


Por trás de cada prato servido existe uma estrutura invisível de dependências mútuas.


O empresário depende do trabalhador e o trabalhador depende do empresário.


Ambos dependem de sistemas econômicos muito maiores que eles.


E todos dependem daquilo que raramente aparece nos balanços financeiros: as pessoas.


Afinal, o dinheiro circula. Os produtos circulam. Os aplicativos circulam.


Mas quem sustenta tudo isso continua sendo gente.


E talvez essa seja a principal lição escondida no almoço de todos os dias.


Referências: Milton Santos — Meio técnico-científico-informacional


Milton Santos - Técnica, Espaço, Tempo.

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