top of page

Beiju, o pão da Amazônia

Crédito da foto: Divulgação.


Vamos começar o texto de hoje com polêmica: Você acha que a França criou a Gastronomia? Ou a Itália? Bem, claro que eu respeito as duas culturas e entendo o papel dos dois dentro da gastronomia mundial. Mas hoje, quero que você pense sobre como se desenvolveu a gastronomia ao longo do tempo.

 

Já falei aqui em outros textos, e é base da minha pesquisa, que a evolução do homem está associada ao ato de se alimentar. E de acordo com os livros de história e da gastronomia – com sua visão eurocêntrica –, podemos dizer que o mundo começou ali na Europa, em especial na região do Mediterrâneo, no que chamamos de “Velho Mundo”. Mas a pergunta é: o que os povos que viviam em outras partes, como o Oriente e América, faziam enquanto as civilizações antigas evoluíam?

 

Um bom exemplo é o pão. De acordo com a história, os primórdios dos pães surgem a partir da união de água com trigo, que inicialmente deu origem a uma espécie de panqueca, que foi usada muitas vezes para levar o alimento à boca, o que depois deu origem ao “pão pita” ou “pão árabe”. Somente no Egito que foi descoberta a fermentação, e foi criado, então, o pão com fermento que nós conhecemos hoje. Mas falando de Pão Árabe, ele é composto basicamente de trigo e água, era um pão chato, que acompanhava todas as refeições. Ali mesmo, no Mediterrâneo, existe sua versão feita de sêmola, o Kesra, é um pão bem parecido com o anterior, e com a mesma função: Levar o alimento à boca.

 

Indo em direção a Índia, encontramos o Naan, um pão chato que acompanha os sabores intensos da Índia. O que o diferencia do Pão Árabe? É o uso do iogurte ao invés da água. Se nós formos ao México, nós temos as tortilhas, que além da presença do trigo, ele leva milho na sua composição, que é um produto típico da América Central. Mas e aqui no Brasil, o que os portugueses viram quando chegaram por aqui?

 

Bem, de acordo com um estudo feito recentemente pela revista Quaternary Science Reviews, foram encontradas em locais diferentes, alguns sítios arqueológicos na Ligúria, norte da Itália, e outras no sul, na Campânia, também na Itália, separados por cerca de 1000 quilômetros de distância. Evidências que os neandertais produziam farinha através do processamento de cereais e outras fontes silvestres, o que nos faz pensar que os índios brasileiros já faziam preparações à base de mandioca que lembrava um pão, o biju ou biju-xica, uma espécie de 'bolo' achatado e em formato redondo, geralmente acompanhado de mel, que tinha uma função muito simples: Levar o alimento à boca.

 

Como o trigo só entrou em nossa alimentação após a chegada europeia ao Brasil, é claro que os índios produziam uma “espécie de pão”, feito com o principal produto, a Farinha de Mandioca. O Beiju era feito através da fécula, amido extraído da raiz, também chamado de polvilho doce ou goma, dependendo da região do Brasil. A partir da fécula, também se obtém a farinha de tapioca, cuja consistência é mais granulada.

 

Então, afirmar que uma determinada cultura é pai ou dona da gastronomia é negar que outros povos estavam produzindo os mesmos alimentos com os produtos que ele tinham à mão. Claro que França e Itália levaram a gastronomia a outro status, mas de fato temos que valorizar o que nossos índios e negros contribuíram para a construção da nossa alimentação. Podemos dizer que sim, o Beiju era o pão do índio, antes mesmo de existir talheres, tinha a função base, alimentar e levar o alimento à boca, no caso os peixe e chibés (isso é uma outra história).

 

Concluindo, e espero deixar uma pulga atrás da sua orelha, que outros alimentos estão presente na nossa alimentação, e que é equivalente a preparações que vão além-mar? E acima de tudo, entender que sim, nossa cozinha amazônica é riquíssima de cultura, e não perde em nada para a cozinha moderna europeia. Um grande abraço e até a próxima.

Posts recentes

Ver tudo

Farinha além dos pratos, carrega história

Olá, Estranhos! No texto deste mês vamos falar um pouco da importância da casa de farinha e a sua importância para nossa cultura alimentar. Para isso é preciso compreender o papel simbólico do ato de

Comments


bottom of page