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O mercado escolhe os melhores ou os mais visíveis?


créditos da foto: arquivo pessoal.
créditos da foto: arquivo pessoal.

Existe uma crença bastante difundida entre empreendedores da gastronomia: se o produto for realmente bom, o reconhecimento virá naturalmente.


A ideia é atraente. Afinal, parece justo imaginar que qualidade, dedicação e competência seriam suficientes para conquistar espaço no mercado. No entanto, a realidade costuma ser mais complexa.


Recentemente, durante uma viagem, observei uma situação que ilustra bem essa questão.


A cidade possuía diversos locais conhecidos pelos moradores como "cafeterias". Na prática, porém, eram lanchonetes que também serviam café. O produto era simples, sem preocupação com método de preparo, origem do grão ou experiência sensorial. Ainda assim, eram os lugares mais movimentados e lembrados pela população.


Curiosamente, a única operação que realmente poderia ser definida como uma cafeteria estava instalada dentro de uma loja de produtos saudáveis.


Havia conhecimento técnico, cuidado com a bebida e uma proposta mais alinhada à cultura do café. Entretanto, poucas pessoas pareciam conhecê-la.


O mesmo acontecia com os salgados. Os melhores produtos que encontrei eram vendidos em uma pequena padaria. Havia equilíbrio, técnica, textura e sabor. Ainda assim, quando perguntava aos moradores onde estavam os melhores salgados da cidade, a maioria indicava outro estabelecimento, muito mais conhecido, embora a qualidade fosse claramente inferior.


A questão que surge é inevitável: o mercado escolhe os melhores ou os mais visíveis?


A resposta talvez seja desconfortável para muitos profissionais do setor.


Na maior parte do tempo, o mercado escolhe aquilo que consegue enxergar.


Isso não significa que qualidade seja irrelevante. Pelo contrário. A qualidade continua sendo fundamental para a construção de reputação, fidelização e longevidade. Mas ela não garante, por si só, notoriedade.


Entre um excelente produto desconhecido e um produto apenas razoável amplamente divulgado, o consumidor frequentemente escolhe o segundo.


Não porque seja incapaz de perceber diferenças, mas porque suas decisões não são tomadas exclusivamente por critérios técnicos.


O comportamento de consumo é influenciado por fatores sociais, emocionais e culturais. As pessoas tendem a frequentar lugares que já conhecem, que foram indicados por amigos, que aparecem constantemente em suas redes sociais ou que possuem forte presença na rotina da cidade.


Em outras palavras: a percepção de valor muitas vezes antecede a experiência.


Antes de provar um café, o consumidor já construiu expectativas sobre ele. Antes de experimentar um salgado, já ouviu opiniões, viu fotografias, recebeu recomendações ou observou filas na porta do estabelecimento.


Essa dinâmica não é nova. O que mudou foi a velocidade com que ela acontece.


As redes sociais transformaram visibilidade em um ativo econômico. Hoje, um vídeo de poucos segundos pode influenciar mais pessoas do que anos de excelência silenciosa.


Nesse cenário, surgem duas armadilhas.


A primeira é acreditar que marketing substitui qualidade. Não substitui. A visibilidade pode atrair clientes, mas somente a entrega consistente é capaz de mantê-los.


A segunda é acreditar que qualidade substitui comunicação. Também não substitui. Um produto excepcional que ninguém conhece dificilmente alcançará seu potencial.


O desafio do empreendedor contemporâneo está justamente no equilíbrio entre essas duas dimensões.


Durante muito tempo, o setor de alimentação concentrou seus esforços quase exclusivamente na produção. Aprender técnicas, aperfeiçoar receitas, selecionar ingredientes e controlar processos era suficiente para se destacar.


Hoje, continua sendo necessário, mas já não basta.


Empreender em gastronomia também significa construir narrativas, comunicar diferenciais, educar consumidores e desenvolver presença de mercado.


A visibilidade não deve ser encarada como algo superficial. Ela é a ponte entre a qualidade que existe e a qualidade que é percebida.


Talvez o maior erro seja tratar qualidade e comunicação como forças opostas, quando na verdade são complementares.


A melhor estratégia não é escolher entre fazer bem ou aparecer.


É fazer bem e garantir que as pessoas saibam disso.


Porque o mercado raramente premia aquilo que permanece invisível.


E, por mais duro que pareça, a história dos negócios está repleta de excelentes produtos que fracassaram por falta de visibilidade, enquanto produtos medianos prosperaram por compreenderem melhor como ocupar espaço na mente das pessoas.


No fim das contas, a pergunta do título não possui uma resposta absoluta.


O mercado nem sempre escolhe os melhores.


Mas quase sempre escolhe aqueles que consegue enxergar.

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