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RESSACA DA COP-30: Precisamos nos reinventar

Crédito da foto: arquivo pessoal.
Crédito da foto: arquivo pessoal.

Parafraseando Carlos Drummond de Andrade:

E agora, José?

A COP acabou,

a luz apagou,

o povo sumiu,

a noite esfriou...


Não podemos negar que a COP-30 foi um dos maiores eventos já realizados na capital paraense nos últimos 40 anos. O que talvez se assemelhe, seja a visita do Papa, mas eu sequer havia nascido para medir esse impacto. De todo modo, é inegável que melhorias ficaram para Belém, independentemente de posição política. No entanto, a pergunta que faço é: e na gastronomia, o que deixamos?


Vimos grandes chefs cozinhando e realizando jantares para reis e autoridades. Isso é muito positivo: mostra a força da nossa cozinha e tira um pouco do peso das costas de nomes como Paulo Martins e Ophir Oliveira, que levaram nossa cultura ao mundo. Mas eu pergunto novamente: qual é o legado desses chefs? E me coloco aqui também como divulgador da nossa cultura. Quantos novos cozinheiros virão inspirados por essa cozinha? Quantos corações estamos incendiando com o nosso trabalho?


Alguns alunos meus trabalharam durante a COP, e vi os olhos deles brilharem ao terem a oportunidade de cozinhar ao lado de chefs que admiram. Hoje, já estão por aí dando show em suas próprias cozinhas. Mas e o resto? Pergunto isso como uma autocrítica: por que cada vez mais vemos bons cozinheiros sendo apagados pela necessidade de fazer apenas o que vende? Voltamos, mais uma vez, à moda do “morango do amor”. Quantas pessoas aproveitaram essa tendência para vender de forma desenfreada? E depois que a moda passa, o que vamos fazer?


Nossa cozinha é incrível, é rica, mas parece que os futuros cozinheiros estão cada vez mais com medo de criar, de fazer algo realmente inovador. Há um receio de arriscar, de tentar algo que os faça se destacar. E, em relação aos grandes chefs, faço apenas um pedido: sejam estandartes, sejam referência para que esses novos profissionais sigam em frente. 


Qual foi o maior legado da COP? É a esperança de que nossa cozinha alcance novos espaços, que novos chefs surjam e que novas referências sejam criadas. Volto a falar aos grandes chefs: quando virem um jovem com potencial, incentivem, façam-no crescer. Belém tem potencial para ser a nova Lima da América do Sul. Basta que cresçamos juntos e caminhemos lado a lado na valorização da nossa cozinha. Gostaria muito de ver novos Saulos, Thiagos Castanhos, Tiago Guarany, Roberto Hundemarck, Felipes Gemaques surgindo e dando continuidade ao trabalho incrível de cada um. Minha meta é transmitir o legado de vocês aos novos cozinheiros e ver, de fato, nossa cozinha ocupar lugares cada vez mais altos.


Nossa cozinha não é apenas tacacá, vatapá, maniçoba e caruru. Ela é muito maior, mais complexa e potente do que os rótulos que insistem em nos impor. Temos uma biodiversidade única, ingredientes cheios de identidade e uma profundidade de sabores que permite criar pratos sofisticados, contemporâneos, intensos em umami e técnica. Basta olhar para o que aconteceu com a gastronomia de Lima, no Peru: partiram da tradição, valorizaram o território e transformaram isso em alta gastronomia reconhecida mundialmente.


Para que isso aconteça aqui, nossos futuros cozinheiros precisam romper com a lógica de fazer apenas o que vende. É necessário ousar, pesquisar, errar, testar e criar. Cozinhar também é um ato de coragem. Sem isso, ficamos presos a modismos passageiros e deixamos escapar a oportunidade de construir uma cozinha amazônica contemporânea, autoral e respeitada.


Este texto não é apenas um desejo, é um desafio. Um convite para que 2026 seja um ano de mais chefs criativos, mais festivais gastronômicos, mais espaços de troca, aprendizado e visibilidade. Que novos cozinheiros tenham oportunidades reais de aparecer, de experimentar e de se afirmar. Que a cozinha amazônica seja vista não só como tradição, mas como futuro.


A COP passou, os holofotes se apagaram, mas o que fica é a responsabilidade. O verdadeiro legado não está apenas nas obras ou nos eventos, mas na capacidade de transformar inspiração em continuidade. Se quisermos que nossa gastronomia alcance novos patamares, precisamos crescer juntos: chefs, cozinheiros, professores, alunos e público. A Amazônia já tem força, identidade e sabor. Agora, falta coragem para levá-la além.


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