A Era da Comida Fotogênica
- Diego Alvino

- 24 de jun.
- 2 min de leitura

Antes de conquistar o paladar, a comida precisa conquistar a câmera.
Vivemos um momento em que a aparência de um prato muitas vezes vale mais do que seu
sabor. Restaurantes são planejados para render boas fotos, ingredientes são escolhidos
pela estética, e receitas são adaptadas para performar melhor nas redes sociais. O
resultado? Uma gastronomia cada vez mais visual.
Não há nada de errado em apresentar um prato bonito. A gastronomia sempre dialogou
com os sentidos, e a visão é parte importante da experiência. O problema surge quando a
imagem se torna mais importante que a essência e a técnica.
Quantas vezes um prato viralizou pelo visual e decepcionou no sabor? Quantas vezes um
restaurante lotou por causa de um vídeo de quinze segundos, enquanto casas com
excelente comida permanecem vazias por não dominarem os algoritmos?
A lógica das redes sociais favorece o que chama atenção rapidamente. Cores vibrantes,
apresentações extravagantes e efeitos visuais geram engajamento. Já o equilíbrio de
sabores, a técnica apurada e a qualidade dos ingredientes exigem algo que as redes
raramente oferecem: tempo.
Essa transformação não afeta apenas os pratos; afeta também as carreiras. Nunca foi tão
comum ver jovens profissionais alcançando rapidamente o cargo de chef. Em muitos casos,
não por uma trajetória construída dentro da cozinha, mas pela capacidade de construir uma
audiência.
Historicamente, a formação de um chef passava por etapas importantes. Auxiliar,
cozinheiro, líder de praça, subchef e, finalmente, chef. Cada posição ensinava algo que
dificilmente se aprende em cursos ou nas redes sociais: gestão de equipe, controle de
estoque, planejamento de produção, padronização, custos, desperdícios e tomada de
decisão sob pressão.
Hoje, porém, alguns empresários enxergam nas redes sociais uma solução rápida para
seus negócios. Contratam profissionais com grande alcance digital para liderar operações
complexas, muitas vezes ignorando a experiência prática necessária para administrar uma cozinha profissional.
O problema é que uma cozinha não funciona com curtidas. Ela funciona com processos.
Em alguns casos, o profissional consegue entregar pratos de excelente qualidade. O sabor
agrada, a casa lota e o movimento aumenta.
Mas é justamente nesse momento que surgem
problemas menos visíveis para o cliente e mais perigosos para o empresário. Fichas
técnicas inexistentes, compras sem planejamento, desperdício elevado, ausência de
controle de estoque, produção desorganizada e equipes sem treinamento transformam o
sucesso de vendas em prejuízo operacional.
O empresário então se depara com uma situação aparentemente contraditória: o
restaurante está cheio, as vendas crescem mês após mês, mas o lucro não aparece.




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