Castanha-do-pará: economia, memória e floresta em pé
- Edivaldo Cordeiro

- há 2 horas
- 3 min de leitura

Há algumas semanas, assisti a um vídeo em que uma jovem preparava um pudim de castanha. No título, ela escrevia “castanha de Rondônia”. Para alguns, poderia soar como erro geográfico. Para mim, soou como afeto.
A castanha pode ter nome científico (Bertholletia excelsa), pode ter denominação comercial consolidada como castanha-do-Brasil, mas, na vivência amazônica, ela ganha sobrenomes emocionais. Ela pertence ao lugar de onde foi enviada, à mão que colheu, à mãe que mandou.
No meu caso, falar de castanha é falar de sustento. Durante muitos anos, a renda da minha casa veio do trabalho árduo de quebra de castanha em fábrica.
Minha mãe trabalhou safra após safra, em um período em que o fruto tinha enorme importância econômica, sobretudo para exportação. Era um trabalho manual, repetitivo, exaustivo, mas foi ele que garantiu dignidade à nossa família.
Um dos pilares do extrativismo amazônico.
A castanha-do-Pará é uma das atividades extrativistas mais tradicionais da Amazônia. Sua coleta depende da floresta em pé, o que a torna um dos maiores símbolos da bioeconomia regional.
Durante décadas, o Brasil liderou a produção mundial. Com o avanço do desmatamento e mudanças estruturais na cadeia produtiva, o país perdeu espaço para a Bolívia. Ainda assim, o fruto permanece entre os produtos extrativistas mais valorizados internacionalmente.

A amêndoa é amplamente apreciada nos Estados Unidos e na Inglaterra, especialmente em períodos festivos como Halloween e Natal, quando compõe cestas e misturas de nuts. As Tentativas de cultivo fora da Amazônia, como experiências históricas no Real Jardim Botânico de Londres, não obtiveram sucesso, pois a espécie não se adapta fora de seu ecossistema natural. A castanheira é, essencialmente, amazônica.
Além da exportação in natura, o fruto possui grande potencial para as indústrias de alimentos e cosméticos. Apesar de enfrentar desafios logísticos e técnicos no processamento, continua contribuindo significativamente para a balança comercial do Pará e para a manutenção econômica de inúmeras comunidades.
As “quebradeiras" protagonistas invisíveis, na qual minha mãe faz parte dessas trabalhadoras. Iniciam suas atividades junto a safra entre janeiro e fevereiro, quando os ouriços começam a cair naturalmente das árvores, e pode durar de quatro a seis meses, estendendo-se até maio ou junho.
Historicamente, o trabalho da quebra de castanha foi desempenhado majoritariamente por mulheres. As chamadas quebradeiras enfrentaram , e ainda enfrentam, desigualdades de gênero, baixos salários e pouca valorização social e econômica.
Entretanto, são elas que agregam valor ao produto. São elas que transformam o ouriço bruto na amêndoa pronta para comercialização. São elas que mantêm tradições, conheci avó, mãe, irmão e filha no trabalho de "quebragem" ( palavra comumente utilizada por pessoas que conheci) da castanha em fabricas. Elas organizam cooperativas, fortalecem vínculos comunitários e sustentam a base social da cadeia produtiva.
Reconhecer o trabalho feminino na castanha não é apenas uma questão econômica, mas de justiça social. Sem elas, não há cadeia produtiva estruturada. Sem elas, não há bioeconomia consolidada. Mais que alimento
a castanha não é apenas nutrição. Ela carrega cultura, identidade, história e afeto. Representa sobrevivência, mas também memória. Pode estar presente em um pudim sofisticado, em uma cesta natalina exportada ou na lembrança de uma infância marcada pelo trabalho materno.
Ela une economia, cultura e sustentabilidade. Sustenta comunidades amazônicas, fortalece a bioeconomia e mantém a floresta preservada.
Para alguns, é commodity.
Para outros, é ingrediente.
Para mim, é parte da minha formação.
A castanha-do-Pará atravessa dimensões: da floresta ao mercado internacional, da fábrica à alta gastronomia, do sustento à memória afetiva. E talvez seja justamente essa capacidade de unir mundos que a torna um dos maiores símbolos da Amazônia.




Comentários