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A arte de filetar: Ver-o-Peso e seus encantos culturais

Crédito da foto: arquivo pessoal.
Crédito da foto: arquivo pessoal.

No amanhecer do Ver-o-Peso, antes mesmo de a cidade despertar por completo, há homens que já dominam o tempo com as mãos. Sobre a pedra fria, marcada por décadas de uso, o peixe repousa como matéria viva de um conhecimento que não se aprende em livros. Filetar peixe ali não é apenas um ofício — é um gesto ancestral, repetido e reinventado todos os dias.


A faca desliza com precisão quase ritualística. Cada corte revela um saber empírico acumulado no corpo: o ponto exato da lâmina, a resistência da espinha, a textura da carne que muda conforme a espécie, a maré e a lua. Esses homens conhecem o peixe antes mesmo de tocá-lo. O olhar antecipa o movimento, a mão responde sem hesitação. É um conhecimento transmitido de pai para filho, construído na observação silenciosa, no erro corrigido pela prática, na repetição que se transforma em memória muscular.


Crédito da foto: arquivo pessoal.
Crédito da foto: arquivo pessoal.

Apesar de sua habilidade ser essencial, esses trabalhadores seguem sendo pouco reconhecidos. Seu ofício, muitas vezes invisibilizado, sustenta uma cadeia inteira da gastronomia local. Antes de chegar ao prato elaborado, ao cardápio dos restaurantes ou à mesa do consumidor, o peixe passa por essas mãos. São elas que garantem qualidade, agilidade e segurança para que esse alimento circule pela cidade e seja transformado em comida, cultura e identidade.


A pedra do Ver-o-Peso é mais que uma superfície de trabalho; é testemunha. Nela se encontram histórias de sobrevivência, dignidade e pertencimento. Cada marca carrega o peso de gerações que aprenderam a viver do rio e com o rio. Ali, a ciência não vem de fórmulas, mas da experiência direta com a natureza, do respeito aos ciclos e da escuta atenta do que o peixe e a água ensinam.


Valorizar esses homens é também repensar a forma como consumimos e celebramos a gastronomia paraense. Reconhecer quem está no início da cadeia é compreender que a comida não começa no prato, mas nas mãos de quem a prepara antes mesmo de ela ser chamada de refeição. Olhar para esses saberes é um convite a enxergar a gastronomia como um patrimônio vivo, feito de gente, memória e trabalho cotidiano.


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