Guaraná da Amazônia une tradição indígena e identidade gastronômica paraense
- Edivaldo Cordeiro

- 13 de fev.
- 2 min de leitura

O guaraná (Paullinia cupana) é um dos frutos mais representativos da Amazônia e possui forte ligação com a cultura e a gastronomia paraense. Extraído das sementes de uma trepadeira nativa, o fruto apresenta aparência singular: pequeno, vermelho e arredondado, abre-se revelando uma semente escura envolvida por uma película branca que lembra um olho humano. Essa característica inspira o próprio nome guaraná, originado do tupi-guarani, que significa “fruta semelhante aos olhos das pessoas”.
Com sabor que mistura doçura e leve amargor, o guaraná também é reconhecido pelo alto teor de cafeína, sendo uma das principais fontes naturais da substância. Entre seus efeitos estão propriedades estimulantes, antioxidantes e energéticas, fatores que contribuem para sua ampla utilização alimentar e comercial.
O consumo do guaraná é milenar e tem origem entre povos indígenas, especialmente os Sateré-Mawé, que utilizam o fruto como alimento, medicamento natural e elemento ritualístico. A importância cultural do guaraná também está presente na lenda amazônica que conta que o fruto nasceu dos olhos de um menino indígena, transformados em planta pelo deus Tupã como símbolo de renovação da vida.
Os primeiros registros históricos sobre o guaraná datam de 1669 e já descreviam o uso tradicional do guaraná em bastão, ralado na língua do peixe pirarucu, técnica indígena que atravessou gerações.
O guaraná ganhou destaque industrial no início do século XX, com o surgimento dos primeiros refrigerantes produzidos na Amazônia. Em 1907, Manaus registrou a produção do Guaraná Andrade, considerado pioneiro no país. Posteriormente, o fruto ganhou projeção nacional com o lançamento de bebidas por grandes indústrias. Atualmente, é comercializado em diversas formas, como bebidas, suplementos alimentares e produtos cosméticos.
No Pará, o guaraná ultrapassa o consumo industrial e se destaca como tradição gastronômica urbana. Um dos exemplos mais conhecidos é a vitamina de guaraná, considerada o milkshake amazônico, bebida popular vendida em praças e carrinhos de rua, especialmente em Belém. A preparação combina guaraná em pó, xarope de guaraná, amendoim, castanhas, leite em pó, leite condensado e gelo, resultando em uma bebida energética e refrescante.
Surgida nos anos 1990 e popularizada nas barracas da Praça Brasil, a preparação se consolidou como marca cultural da cidade. Diferente de outras regiões do país, onde o guaraná aparece principalmente em refrigerantes, no Pará ele se transforma em uma bebida que expressa identidade, clima e tradição.
Mais do que um fruto amazônico, o guaraná representa a conexão entre ancestralidade indígena, memória afetiva e inovação culinária, mantendo-se como símbolo da cultura e da gastronomia regional. É difícil imaginar um passeio pelas praças de Belém sem saborear uma batida de guaraná, que vai muito além de uma simples bebida e se torna representação de identidade.
Para muitos paraenses, o milkshake amazônico traduz memória afetiva e sentimento de pertencimento. Em Belém do Pará, o guaraná é marca viva de cultura e herança alimentar.










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