Memórias e referências em tempos de IA
- Arturo Báez

- 7 de fev.
- 2 min de leitura

Fala, meu povo lindo! Tudo bem com vocês?
Tô aqui, com meu cafezinho, fazendo uma reflexão.
Tem dias em que a cozinha parece ganhar um botão novo: “resolver”. A inteligência artificial entra como quem chega com o mise en place pronto, etiquetado, porcionado, tudo organizado para marchar o pedido. Você dá o comando e ela te entrega uma combinação de sabores, um método, uma harmonização, um cardápio inteiro — e, se quiser, até a precificação!!!
Rápido. Em questão de segundos, você tem uma experiência na tela do seu smartphone.
E é aí que mora o problema. Quando a resposta vem sem caminho, a gente vai perdendo o hábito de atravessar a própria memória. Eu aprendi que o que fazemos na cozinha nada mais é do que transformar memórias e referências em comida.
Cozinha é um organismo vivo. O cheiro do tucupi subindo na panela, a pimenta-de-cheiro sendo refogada, a colher que vai e volta várias vezes ajustando sal, pimenta, acidez…
A memória gastronômica não é nostalgia, é repertório técnico. É lembrar a textura certa, o ponto que não se ensina em livro. A proteína que pede um descanso. É reconhecer o insumo como um todo, não só pelo nome.
A busca por solução rápida, esse “me dá aí uma ideia”, muitas vezes atrofia o músculo do cozinheiro.
Cozinheiro sem criatividade está fadado a replicar receitas.
A IA pode sugerir mil caminhos, mas não pode, em hipótese nenhuma, nos distanciar da nossa essência.
As referências gastronômicas também sofrem com essa pressa. Antes, a gente construía repertório por camadas: livro marcado, caderno sujo de anotação, conversa com os mais velhos, mercado, viagem, erro, acerto, repetição.
Esse texto não é um manifesto/cancelamento dos recursos tecnológicos — longe disso. É apenas a preocupação de um cozinheiro que pensa em entregar uma experiência amazônica que não pode e não deve ser “expressa”!.
Talvez o melhor uso da inteligência artificial na gastronomia seja o organizacional: acelerar o que é burocrático, ampliar possibilidades… sem interferir no que é humano. Afinal, cozinhar é um ato de amor, de afeto.
Até o próximo café, meu povo…
Bjo no coração.











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