Quem nós somos dentro da cozinha?
- Kenny Nogueira

- há 11 horas
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Quando pensamos em comida paraense, a tendência é olhar apenas para nossa parte belenense ou indígena.
Lembramos do açaí, do peixe frito, da maniçoba, do tacacá e de outros pratos que, de fato, são exemplos da nossa cultura alimentar. Só que muitas vezes esquecemos que o Pará é maior do que muitos países da Europa e que nós também temos culturas diferentes dentro da nossa própria terra.
É consenso que os indígenas tiveram um papel importante quando falamos do conhecimento dos produtos da Amazônia e do preparo de vários pratos: o tucupi, a farinha, as frutas como bacuri e cupuaçu, as folhas como o jambu e a maniva, além das próprias técnicas, como o moquém e o arubé.
Os negros, além de trazerem a pimenta-malagueta, que já mencionamos em outro texto, trouxeram o toque do dendê, o uso do quiabo e, principalmente, a fusão das técnicas portuguesas com os produtos locais, resultando em alimentos mais encorpados e saborosos, como o próprio vatapá e a maniçoba.
Já os europeus trouxeram conhecimentos adquiridos ao longo da Antiguidade, como o uso do azeite, de aromáticos como cebola e alho, o refogado, a carne suína, as aves, a carne bovina e até o açúcar, que foi muito bem aceito por aqui.
Mas, quando pensamos em tudo isso, quase sempre focamos exclusivamente na região mais urbana e politicamente central do estado. E eu pergunto: e o nordestino que veio ocupar o interior do Pará? Que foi mão de obra na abertura de novas cidades?
Não podemos esquecer da contribuição deles, principalmente no consumo da carne de sol, que acabou se disseminando por todo o estado, e no uso do arroz e do feijão, que, junto com a farinha, tornaram-se a base da alimentação diária. As comidas à base de milho lembram o quê? Apenas festa junina? Não.
Os nordestinos fundamentaram em nossa cultura a tradição de preparar comidas especiais nas festas religiosas e, mais do que isso, a importância de festejar sempre.
O nordestino trouxe algo muito valioso para o interior do Pará: a necessidade de aproveitar ao máximo os ingredientes locais. Isso explica, por exemplo, por que no Baixo Amazonas não é comum o consumo de filhote ou dourada como protagonistas, mas sim de pirarucu, tambaqui e tucunaré. Eles entraram no meio da mata para desbravar a seringa e trouxeram hábitos e produtos que até hoje fazem parte da nossa identidade alimentar.
E não podemos esquecer o Sul do Pará, que recebeu não apenas nordestinos, mas também pessoas do Centro-Oeste e do Sul do Brasil, trazendo muito de suas culturas para a região. Posso afirmar que, em um almoço de domingo, é mais fácil encontrar uma galinhada com pequi do que um arroz paraense, não que ele não exista, mas é mais comum ter uma galinha caipira do que camarão seco.
Nas festividades, é comum consumir costela no fogo de chão, assim como maniçoba, e ambos exigem tempo para ficar prontos. E por que tudo isso? Porque o Pará é diverso. Ele tem suas próprias culturas, suas próprias manias e, principalmente, múltiplas identidades dentro de si.
Reduzir a comida paraense apenas à influência portuguesa, indígena e africana é virar as costas para as contribuições de outros povos que também ajudaram a formar nossa alimentação, e isso muito antes da internet. Porque, com a internet, vemos comidas diferentes todos os dias, mas essas culturas estão enraizadas na nossa vida há muito tempo.
Na próxima semana, vou falar sobre como se formou a tradição da comida de rua aqui em Belém.
Até a próxima. Um grande abraço.




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