Entre coxinhas, luto e recomeços: a história de Dany Brito, mulher que transformou a gastronomia em salvação
- Gastronomia Paraense

- há 18 horas
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No bairro do Paar, em Ananindeua, a cozinha nunca foi apenas um lugar de preparar alimentos para Daneyska de Cássia de Brito Tavares, conhecida como Dany Brito. Para ela, cozinhar foi abrigo, sustento, recomeço e, em muitos momentos, a força necessária para continuar quando a vida parecia exigir mais do que ela imaginava conseguir suportar.
Hoje estudante de gastronomia, cozinheira e idealizadora do projeto “Sabores JD”, Dany carrega uma trajetória marcada por desafios, superação e uma conexão profunda com a culinária, especialmente com os sabores paraenses.
A relação de Dany, que participou da COP 30 e foi aluna destaque no curso de gastronomia da UNAMA 2025.2, com a culinária começou ainda na infância, ao lado da avó materna, uma mulher que se tornou sua grande referência.

“Um dos primeiros lugares que lembro era o Grêmio Literário Português, onde minha avó fazia salgados e outras preparações. Eu ficava observando tudo”, relembra.
Com o passar do tempo, a observação virou aprendizado. Aos nove anos, Dany já dominava preparações básicas como arroz, feijão, macarrão, picadinho e, principalmente, a receita que se tornaria símbolo de sua trajetória: a coxinha.
As festas de fim de ano eram períodos intensos para a família. A avó trabalhava preparando ceias em diferentes casas e a neta seguia ao lado dela, ajudando e absorvendo cada detalhe.

Mas a vida mudaria quando sua avó adoeceu gravemente e precisou ser internada.
Para ajudar no sustento da casa, Dany e sua mãe decidiram vender coxinhas na frente de casa. O que começou como uma necessidade tornou-se o primeiro grande passo de uma relação que, anos depois, ela reconheceria como algo muito maior.
“Foi sempre a comida que me salvou”, afirma.
Ainda adolescente, aos 16 anos, assumiu responsabilidades que exigiam maturidade precoce. Passou a ocupar temporariamente o lugar da avó em trabalhos culinários, produzindo desde coxinhas até caldo verde, mocotó e outros pratos.

Mesmo vivendo intensamente a cozinha, ela não imaginava que faria disso sua profissão. Seu sonho era cursar Engenharia Ambiental.
Mas a vida tinha outros caminhos reservados.
Casamento, maternidade, dificuldades financeiras, desemprego e novos desafios fizeram a gastronomia reaparecer inúmeras vezes como resposta.
Sempre que as circunstâncias apertavam, havia uma solução recorrente:
“Vamos fazer coxinha?”
E quase como um ritual que se repetia ao longo dos anos, dava certo.
“Ela tem um vínculo especial na nossa vida. Toda vez que parecia que não havia saída, a gente decidia fazer coxinha e vender. E nunca deu errado.”
Durante um período, Dany decidiu seguir outro caminho profissional e trabalhou por oito anos como cabeleireira. Porém, a gastronomia permanecia presente por meio de encomendas de salgados, bolos e outros produtos.

A pandemia trouxe um dos momentos mais difíceis de sua vida.
Após contrair Covid-19, ela precisou ser internada, chegou à UTI e teve 60% do pulmão comprometido.
“Foi um pesadelo.”
As sequelas respiratórias impediram que continuasse atuando normalmente no salão por conta dos produtos químicos utilizados na profissão. Vieram a depressão, a insônia e um período emocionalmente delicado.
Em meio a tudo isso, outro golpe profundo: a perda da avó.
A mulher que havia sido seu maior alicerce faleceu justamente quando Dany planejava iniciar a faculdade.
O dinheiro que seria usado para a matrícula precisou ser destinado às flores do caixão.
Dias depois, em meio ao luto, ela tomou uma decisão.
“Senhor, eu preciso me reerguer. Preciso fazer alguma coisa para sustentar meus filhos.”
E mais uma vez, voltou para aquilo que conhecia tão bem: as coxinhas.
Durante madrugadas inteiras, entre lágrimas e massa sendo preparada, ela seguiu trabalhando.
“Entre uma coxinha e outra, as lágrimas escorriam no meu rosto.”
Mesmo diante de novos obstáculos — incluindo problemas de saúde, três hérnias de disco e doenças autoimunes — Dany continuou avançando.
Uma nova oportunidade surgiu através do curso técnico em Nutrição e Dietética. Mais tarde, a experiência despertou definitivamente seu interesse pela gastronomia profissional.
Hoje, cursando o segundo semestre de Gastronomia, ela afirma estar cada vez mais apaixonada pela profissão que esteve presente em todos os momentos da sua vida.
Entre suas criações está uma receita autoral que une tradição paraense e culinária internacional: uma massa fresca de jambu, adaptação inspirada na gastronomia italiana, que leva o característico tremor do ingrediente amazônico.
A receita está entre as finalistas do concurso gastronômico Sabor UNAMA.
Apaixonada pela cozinha quente, Dany diz que o que mais a encanta é a possibilidade de criar, inovar e adaptar sabores.
Atualmente ela trabalha com encomendas de salgados, cozinha em eventos e organiza a continuidade do projeto “Sabores JD”, sonho que pretende fortalecer nos próximos anos.
Além disso, descobriu uma nova paixão: ensinar.
“Não devemos guardar para nós aquilo que sabemos. Precisamos passar adiante.”
Sua história deixa claro que, para algumas pessoas, cozinhar vai muito além de preparar refeições. É construir caminhos quando tudo parece perdido.
E talvez a própria Dany resuma melhor sua trajetória na mensagem que deixa para quem sonha com a gastronomia:
“Acreditem em vocês mesmos, mesmo nas dificuldades, nos obstáculos, não desistam, persistam. Um dia a recompensa vem e gastronomia é isso: persistência."
Instagram: @dany_brito1703




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