O cheiro-verde e a alma da cozinha paraense
- Rômulo Aires (Téo)

- há 1 dia
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Na cozinha do Pará existe um detalhe simples que diz muito sobre a nossa cultura: o cheiro-verde. Parece apenas um tempero, mas para quem vive a culinária amazônica ele é quase um sinal de identidade da panela.
O Cheiro-verde que usamos hoje não nasceu exatamente na Amazônia. Suas bases vieram de longe. Ervas como a cebolinha, a salsa e o coentro chegaram ao Brasil com os portugueses durante o período colonial.
Mas foi na Amazônia que esse tempero encontrou outra vida.
Aqui ele se misturou com ingredientes da terra, principalmente a chicória-do-pará, que tem aroma mais forte e profundo. Dessa mistura nasceu um cheiro-verde com personalidade própria, capaz de acompanhar os sabores intensos da culinária paraense.
Ele passou a aparecer em pratos feitos com ingredientes marcantes como o tucupi, o jambu e os diversos peixes de rio que formam a base da alimentação amazônica.
Com o tempo, o cheiro-verde deixou de ser apenas um tempero trazido de fora e se transformou em algo completamente incorporado à identidade da nossa cozinha.
Nas feiras tradicionais de Belém, especialmente no histórico Ver-o-Peso, ele aparece em grandes maços verdes, sempre ao lado do peixe fresco, da farinha e das pimentas. Esse costume nasceu da própria dinâmica da cozinha popular amazônica.
Quem comprava na feira quase sempre cozinhava para muita gente: família grande, trabalhadores, vendedores de comida ou cozinheiras de barraca. O maço grande de cheiro-verde já era pensado para várias panelas.
Mas existe outro detalhe curioso nessa história.
No Pará, muita gente consegue perceber imediatamente quando o cheiro-verde é bom de verdade. Pode parecer exagero para quem não vive essa cultura, mas para quem cresceu perto da feira ou da panela de peixe, o nariz não se engana.
O cheiro-verde de qualidade tem perfume vivo, folhas firmes e cor intensa. Quando a faca corta, o aroma sobe na hora e invade a cozinha. É aquele tipo de tempero que parece simples, mas muda completamente o sabor do prato.
Já o cheiro-verde fraco é fácil de reconhecer: folhas murchas, pouco aroma, cortado muito antes de chegar à panela. Ele até entra na comida, mas não levanta o prato.
Por isso muitos cozinheiros paraenses dizem uma frase antiga da cozinha regional:
o cheiro-verde “acorda a panela”.
E talvez seja exatamente isso.
Quando ele entra no final do preparo, o perfume sobe e anuncia que a comida está pronta.
No Pará, a panela pode começar no peixe, no tucupi ou no jambu.
Mas muitas vezes o cheiro que anuncia a comida… vem do cheiro-verde.




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